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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A casa dos pesadelos (2)

Guilherme acordou tarde da manhã, com os olhos pesados e o corpo dolorido. Passou pela cozinha, avistou a mãe sentada na mesa, o olhar longe. Ela murmurou um bom dia ao filho, sem erguer o rosto.
- Onde está o pai?
- Eu não sei. - Ela levantou-se da mesa, fugindo do assunto.

Guilherme irritou-se com a indiferença da mãe e foi para o quarto. Ligou o som bem alto, abriu a janela e atirou-se na cama, com força. Não sairia dali, não para ver aqueles rostos deprimentes, nem ouvir a palavra 'separação' mais uma vez. Ele deveria ter ainda os pedaços de pizza que haviam sobrado da noite anterior, portanto, não precisaria sair do quarto para almoçar.

Horas passaram, quando Guilherme ouviu a mãe batendo na porta.
- Filho, abre aqui.

Levantou, contra a vontade, e foi abrir a porta para Sara. Ela entrou, com uma expressão triste no rosto, e sentou-se ao lado do filho.
- Filho, eu...
- Eu já sei, não precisa dizer nada.

A mãe calou-se, como se as forças tivessem sumido de repente, e ela apenas abaixou o rosto.
- Eu queria que você compreendesse, brigas são normais, e...
- Não é a primeira vez. Não é normal. Você chorando todos os dias é normal? Não pense que eu não percebo as coisas. Isso não é normal! Vocês são anormais! - ele gritava, enquanto a mãe já ia se levantando, visivelmente aborrecida.
- Eu não consigo nem conversar com você Guilherme.
- Mas eu não quero conversar.

Ouviu o barulho da porta, o pai chegava em casa. Carlos passou pelo quarto do filho e parou. Um silêncio incômodo se fez. Sara olhou-o, e agora não escondia mais a irritação. Carlos aproximou-se e olhou fixamente para o filho, como se Guilherme também estivesse contra ele. Sara virou-se e disse ao marido:
- Quem sabe você briga com o garoto também? - a voz dela falhava.
- Não vou brigar com ele, não adianta mais. Você já conseguiu colocar ele contra mim! E sabe o que eu vou fazer? Eu...
- Não! Não quero ouvir, não quero ouvir! Sabe o que eu vou fazer? Eu e o Guilherme...
- Não me meta nessa história! - Guilherme se ergueu, furioso - Façam o que bem entenderem, façam o que quiserem, essa família tá uma droga mesmo! Façam o que quiserem, mas me deixem fora disso!

Guilherme agarrou o boné, caminhou até a porta, passou pelos pais e saiu de casa. Nada mais se escutou. Ele queria sumir. Ele não aguentava mais.
Juliana. Ele precisava dela, do abraço dela, da voz dela. Ele queria vê-la. Mas não queria que ela o visse daquele jeito.

Passava pelas ruas, os passos apressados, nem sabia onde ia ir, ele nem pensava em lugar nenhum, pensava nos pais, a cabeça latejava, ele só queria ir pra bem longe, queria pensar na Julian...

- Gui! Onde pensa que vai nessa pressa toda, nem olha onde anda!

Juliana. Céus, ela estava ali. E ela lhe sorria. Meu Deus, como ele era idiota. Que papel ridículo fez na frente dela, andar igual um sem teto até esbarrar nela, na sua Juliana. Sua, mas ela ainda não sabia disso. Linda (era possível não estar linda?) e ele, um idiota. Um grande idiota!

- Aaah, bem, eu... Me desculpa, eu... Eu tava indo no...
- Eu te conheço, Gui, não precisa disfarçar. Quer me contar alguma coisa? - ela lhe sorriu o sorriso torto mais lindo do mundo inteiro. E ele sentiu uma paz, ele quis contar a ela, ele quis que ela o ouvisse e dissesse que estava ali, sempre. Que ela era sua. Deu-se conta dos pensamentos exagerados, voltou à realidade e disse:
- Sim, eu quero.

Sentaram-se na praça. Ia anoitecendo. Ele contou a ela o que havia acontecido. Ela ouvia com atenção, os olhos dela o envolviam.
- ...e foi isso. Eu não quero voltar pra lá.
- Mas Gui, você precisa voltar pra casa, teus pais...
- Eu não vou voltar pra lá, Ju! Não vou.

Ela se ergueu.
- Tudo bem. Eu tenho que ir agora. Mas fica bem. Você sabe que eu estou aqui para o que precisar, sempre.

Aaah. Só faltou ela dizer 'sou sua' e tudo era como em seus pensamentos, tudo ficava perfeito. Até pra casa ele voltava. Mas aquilo era absurdo. Ela era a Juliana, e ele era um idiota. Um idiota que acabava de receber aquele corpo em seus braços, no melhor abraço do mundo. Ele teve vontade de beijá-la, mas logo ela lhe soltou, e mexendo nos cabelos disse:
- Até mais, Gui. E vê se volta pra casa.

Aaah Juliana. Ela não precisava ser tão bonita assim. Ela o fazia sentir-se o ser mais atrapalhado do universo. E ela o fazia sentir-se bem, muito bem. Mas não voltaria pra casa, não queria. Se morresse aquela noite, o rosto dela seria a última e mais bela coisa que ele teria em seus pensamentos.

E assim ele saiu andando, meio chorando, meio sorrindo. Perdido em pensamentos e fantasias, ele nem via por onde andava, nem ao menos notou que se desviava para o antigo casarão, na rua de baixo.

Um comentário:

Unknown disse...

*-*

quero ler o restooo
\o/