A cena se desfez, deixando uma escuridão quase completa, e uma porta, que certamente levaria de volta ao corredor. Guilherme correu até a porta, e chegou ao corredor, em pânico.
Quando aquele pesadelo ia acabar? Ergueu as mãos à frente do rosto, elas tremiam. Ele estava dolorido, exaurido, o corte da perna era apenas uma marca que nada doía perto do que seus membros sofriam agora. Como ele ia encontrar a chave? Nem ao menos sabia como procurá-la, no meio de tantos horrores! Sera que a sua família estava bem? Aquilo era real?
Ah Daniel! Como ele queria abraçar o pequeno irmão agora. Desejava que do lado de fora da mansão, ele estivesse bem.
O que a próxima porta revelaria? Guilherme não entendia porque tinha que passar por tudo aquilo só para pegar uma simples chave. As mãos tremiam. Os olhos lacrimejavam. Mas ele não tinha saída. Foi em direção à quarta porta.
Abriu-a.
O que era aquilo? Uma biblioteca? Sim, era uma biblioteca. O lugar menos assustador dos outros três, talvez pelo fato de Guilherme sempre ver nos livros uma companhia. O garoto foi entrando, olhando cada canto cuidadosamente.
A biblioteca era bonita; grande e bonita. Mas, como tudo o que havia nas portas anteriores, a falta de luminosidade era evidente.
De repente, um pensamento esperançoso iluminou o rosto do garoto: era muito provável que a chave estivesse por ali, ou que, pelo menos, algum daqueles livros trouxesse alguma pista. Guilherme sorriu ao pensar que talvez estivesse mais perto de sair daquele lugar.
Foi procurando em todas as estantes, em cada um dos livros. Livros grossos, finos, grandes, pequenos, de história, poemas, contos, capas coloridas ou de cores sujas. Guilherme tirava-os da estante, abria e procurava por entre as páginas, às vezes espiando o assunto dos livros. Viu até seus livros preferidos, que ele costumava ler para Daniel.
Um deles, porém, chamou sua atenção: era vermelho, com desenhos em preto e dourado na lateral; destacava-se no meio dos outros. O nome do livro, curiosamente, era "leia-me".
Guilherme achou que naquele livro, eles descobriria alguma coisa - qualquer coisa - que o ajudaria. Mas, quando puxou o livro, um braço se estendeu em cima da estante, puxando o livro no sentido oposto.
Guilherme soltou um berro de horror, quando viu o braço cheio de manchas negras, como se estivesse em estado de putrefação. Ele não sabia se lutava pela posse do livro, ou saía correndo dali. Instintivamente, apoiou o pé na estante e se impulsionou para trás com toda a força, o livro em mãos. A mão cadavérica largou o livro e Guilherme caiu no chão, com um estrondo.
Ergueu-se, pronto para correr, ou na pior das hipóteses, lutar com o dono do braço, mas não foi necessário.
Guilherme aproximou-se novamente da estante, e viu o braço cessar seus movimentos, aquela mão mórbida relaxar suavemente os dedos, e então imobilizar-se completamente.
Alívio. Guilherme ainda permaneceu olhando aquela mão por alguns minutos, com certo receio, mas quando não notou mais nenhum sinal de movimento, voltou sua atenção ao livro que finalmente estava em suas mãos.
Quando abriu o livro, viu na primeira página uma frase escrita em vermelho: "Para Guilherme". O garoto jogou o livro no chão e afastou-se. Aquela biblioteca há muito deixara de ser inofensiva. Tremendo, olhou para o livro no chão e pensou se realmente valia a pena continuar com aquilo. Era preciso, se ele quisesse ter a chance de sair dali. Pegou novamente o livro e folheou-o.
A frase não estava mais lá, mas ao invés disso, um sinal de advertência: "Encontre as chaves depressa. Ao contrário, você será o próximo."
Ofegante, Guilherme virou a página e viu fotos. A primeira, de sua mãe com vestes brancas descendo riacho abaixo, a segunda, Daniel banhado em sangue no chão de uma rua escura, a terceira era a sua própria foto, seu rosto desfigurado.
Guilherme sentiu o sangue sumir-lhe das veias. Fechou o livro imediatamente, e atirou-o contra a parede. O livro caiu no chão, aberto. Ele não sabia o que fazer, o silêncio sepulcral da biblioteca o apavorava.
Mas o silêncio não durou por muito tempo. Podia ouvir, horrorizado, as estantes rangerem, sem motivo aparente. Ele não conseguia olhar firme para a última estante: ela era a origem do barulho.
Com um choque de horror, viu uma criatura extremamente pálida sair de trás da última estante. As pernas de Guilherme afrouxaram, a criatura era odiosamente familiar. Era ele próprio.
As faces encovadas, os olhos muito abertos, já não circulava mais sangue naquele corpo branco cheio de manchas, faltava-lhe um braço. Era ele próprio, um cadáver seu, andando ao seu encontro.
Guilherme ficou sem reação. Sentiu os músculos enrijecerem, ele não conseguia se mover, tamanho era o horror de ver aquela criatura infernal vindo em sua direção. E ela vinha se aproximando lentamente, como se tivesse certeza de que Guilherme não seria capaz de fugir.
Mas o garoto, num impulso, virou o rosto em direção à porta da biblioteca, e viu ali a única chance de escapar daquele lugar.
Moveu os pés estranhamente, como se eles não pertencessem mais ao seu corpo. Chegou até a porta, agarrou a maçaneta com fúria. Quis desmaiar: estava trancada.
Chutou a porta, mas a fechadura não cedia. Olhou para trás e soltou um grito abafado de terror, ao ver a criatura já muito perto. Sacudia a porta loucamente, os dentes cerrados. Olhou mais uma vez. A criatura agora estendia o braço que ainda tinha para agarrar Guilherme, mergulhado em pânico.
Com uma última tentativa, girou a maçaneta e esta se abriu milagrosamente. Quando conseguiu colocar o pé do corredor, a criatura agarrou-lhe o braço. Ao sentir aquela pele fria, Guilherme encheu-se de repulsa, e instintivamente, lançou o braço livre no rosto do cadáver. Tamanha a intensidade daquele soco, que fez aquele corpo morto cambalear e cair para trás, com um som alto de ossos partidos.
Vendo-se livre, Guilherme imediatamente fechou a porta. Estava no corredor. Largou-se no chão, chorando. Estava a salvo, mas sem as chaves.
Um comentário:
meeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee..
parece um filme de terror
:(
tensoo...fico imaginando como é o cenário
*-*
curiosa mariia
posta mais :D
beijoo
Postar um comentário