- Onde pensa que vai desse jeito? Está se arrastando...
Ignorei minha avó e saí pela porta da frente. Ela me olhava com uma expressão entre curiosa e perplexa. Não que eu não devesse, ou não quisesse dizer a ela onde ia, mas tinha preguiça. Preguiça grande e invencível, os lábios nem tinham força para se abrirem e pronunciarem alguma coisa. Tudo consequência do tédio de todos os dias.
Andei sem rumo, durante um tempo que não pude contar, sem sentir os pés tocarem o chão, sem sentir vento no rosto, nem nada. Eu era apenas um corpo móvel, indiferente à tudo ao meu redor, até que cheguei em uma escadaria reta, com paredes dos dois lados.
Sem motivo algum, parei ali mesmo e sentei. Eu não tinha planos, nem algo interessante para fazer, e com todo aquele desânimo era melhor mesmo que eu ficasse afastada de pessoas efusivas.
- Sozinha.
Sorri ao reconhecer a voz que falava às minhas costas. Virei o rosto para ele, que se sentou um degrau acima daquele onde eu me encontrava.
- Não sei porque, mas sabia que ia te ver aqui.
Aqui onde? Eu nem sabia onde estava.
- Você parece cansada, desanimada.
Eu me limitei a olhá-lo por um instante. Era tão óbvio. Virei o rosto novamente.
- Olhe para mim.
Lancei-lhe um olhar sem emoção, e ele aproximou o rosto do meu, ficando com os olhos a centímetros do meus. Senti como se ele pudesse ler minha alma.
- Não vai dizer nada?
Não, eu tinha preguiça. Notei a expressão confusa dele e sorri. Aquilo estava me divertindo. Os centímetros que nos separavam sumiram, quando ele me beijou suavemente, e ainda com os lábios encostados nos meus disse:
- Não vai dizer nada ainda?
Fiz sinal negativo com a cabeça e me levantei. Subi as escadas que davam para a rua, deixando ele lá sentado, rindo como se já soubesse que eu faria isso.
Continuei andando, atordoada, até que entrei em uma loja. Precisava de distração, de alívio, de... qualquer coisa!
Passei o dedo pelas fileiras de CDs mas nada me agradava. Parei diante de camisas pretas organizadas em cabides, e uma moça simpática da loja parou ao meu lado. Antes que ela pudesse perguntar se eu precisava de ajuda, agarrei uma das blusas pretas na minha frente e fui me esconder atrás de uma porta que devia ser a do banheiro. Voltei vestindo a camiseta da minha banda preferida, e larguei nas mãos da moça apavorada, uma nota e a blusa que eu antes vestia.
Saí da loja sem entender porque tinha feito aquilo. Pensei nele, quis voltar para aquelas escadas e dizer que eu não devia ter saído daquele jeito, mas alguns minutos depois eu entrava novamente em casa. Uma estranha sensação de leveza e alívio percorreu todos os músculos do meu corpo; minha avó percebeu. Levantou-se da sua cadeirinha de madeira e me olhou por cima dos óculos.
- E então?
- Eu estou bem, vovó.
Sorri para ela e me dirigi para o quarto, fazendo careta. Depois de vários dias em silêncio, era engraçado ouvir a própria voz.
2 comentários:
Ficou muito legal. Penso que conseguiu fazer um clima de suspense muito bem elaborado. Parabéns!
Ri quando li "Sorri para ela e me dirigi para o quarto, fazendo careta." Hahaha... É algo tão estúpido e frequente...
Li seu comentário sobre os moinhos. Fiz uma breve resposta a ele no meu blog mesmo.
Inspirou-se em algum acontecimento para escrever esta história?
Pude imaginar a cena do conto. Fazia frio, o tempo estava fechado. Realmente era um dia entediante... Imaginei a vovó em sua cadeira, tricotando, fazendo pequenas pausas para observar a neta, esticando os olhos sobre os óculos e perguntando: "E então?".
Te imaginei realizando a cena em que a personagem pega a roupa de sua banda preferida... Você pegava uma camiseta com uma estampa escita "Green Day" e a foto dos integrantes.
Essa história me fez lembrar de um filme de suspense que vi ontem a noite... "Pânico na Neve". Muito bom. Recomendo. Não sei se vai gostar. É meio -ou melhor, muito- dramático também.Mas nem por isso é ruim. É uma superprodução.
Falando em filme, ontem, também, assisti "Rio" no cine. É muito legal. Recomendo também.
Pense numa música. Me escreve qual foi a primeira música de que se lembrou. Não é por nada, só senti-me na necessidade de te perguntar :)
Bom Maria, passar bem.
Abração.
Obrigada! Vou fazer uma visita ao teu blog para ler teu comentário (:
Na verdade Mateus, não me inspirei em nada pra escrever esse texto, porque ele foi um sonho (como diz o marcador). Eu sonhei isso e, por achar curioso, acabei escrevendo ^^
E na parte da camiseta da banda preferida, não seria Green Day, mas gostei do palpite hahahahah
O filme Rio, vou assistir sim, mas aqui em Frederico o que tá no cinema demora para chegar :p
Hum, uma música... Na hora eu estava cantando no pensamento Cornestone, da banda Arctic Monkeys. Então essa é a música (:
Abraço guri ^^
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