Ela era pequena demais para conseguir se defender, ou ao menos se levantar. Ela não poderia, ela nem ao menos sentia. E eu nem sabia o que pensar quando peguei no colo aquela menina desacordada, com o rosto sujo de sangue.
Ela precisava de um hospital, precisava de qualquer ajuda. Eu não sabia o que havia acontecido com ela, mas a palidez não era algo bom. Comecei a correr até o hospital mais próximo, sentindo pena daquela criaturinha tão frágil em meus braços. A pequena criança fazia meu coração encher-se de aflição, tinha medo que pudesse machucá-la apenas por correr tão rápido.
No que pareceu uma eternidade, finalmente cheguei ao hospital. Saí empurrando portas e gritando para que me ouvissem. Eu tinha uma menina ferida no meu colo, alguém precisava fazer alguma coisa! Mas ninguém me ouvia, ninguém me notava ali, ninguém notava a pequena no meu colo. Pessoas de expressão intelectual vestidas de branco passavam a todo momento, barulho de macas e mais macas sendo arrastadas. Aquele lugar era feio, e mal iluminado, mas era o melhor que eu pudera encontrar. Puxei uma das macas para o meu lado e ali coloquei o corpo da menina, que ainda parecia dormir. O cérebro parecia bombear dor, mas eu mal prestava atenção nisso, enquanto gritava para que alguém viesse ali imediatamente.
Quando senti uma pequena mãozinha gelada segurar a minha. Me virei rapidamente, e então vi que ela estava bem. Com os olhos abertos, a criança sorriu para mim, agradecida, e eu soltei um suspiro alto de alívio. Ainda com as mãos tremendo, segurei-a contra meu peito, e senti o coração descansar.
Dias depois, o hospital consumia a maior parte do meu tempo. Anna se sentia bem, mas não lembrava-se do que havia acontecido. Descobri, depois do dia em que levei-a para o hospital, que ela era órfã. E era uma criança linda, e meiga. Me agradecia todo o tempo, pedia que eu não a abandonasse. Agora ela estava temporariamente no hospital, e eu ia vê-la sempre que podia. Assim que me via, ela segurava a minha mão e passeava comigo pelos corredores. Mas eu não gostava daquele lugar. Nem parecia um hospital.
Enquanto Anna caminhava comigo por lá, eu ia observando o lugar. As paredes feias, lâmpadas faltando, médicos que não pareciam médicos indo para os quartos onde ninguém mais entrava e só era possível ouvir gritos.
Aquilo não era possível, aquilo parecia cada vez menos um hospital. Aquilo me assustava. Mas eu não queria passar essa impressão para Anna, não demoraria muito para ela ter um lar de verdade.
Mesmo não querendo que ela soubesse que eu não gostava dali, disse que não queria que ela saísse sozinha quando eu não estivesse por perto. Ela olhou ao redor, e eu vi que alguém escutara o que eu dissera, e me dirigia um olhar frio e raivoso.
No dia seguinte, Anna estava agitada. Assim que eu cheguei, segurou minha mão e começou a me puxar com força. Queria que eu fosse com ela ver alguma coisa, queria me mostrar algo. Sorri ao ver seu rosto amável e entusiasmado, e comecei a acompanhá-la. Mas meu sorriso não durou muito, quando vi onde ela estava me levando. Havia uma corredor muito escuro à nossa frente, e imediatamente eu cravei os pés no chão e disse que não queria que ela fosse ali.
Mas a menina era forte. Puxava minha mão com cada vez mais força, enquanto eu dizia aos berros que não iria àquele lugar. De repente, sua mão soltou-se da minha. Anna saiu correndo para dentro do imenso corredor escuro, enquanto duas mãos fortes me seguraram para que eu não corresse atrás dela.
Antes da visão ficar negra, eu pude ter certeza de que Anna não voltaria.
3 comentários:
Muito bom, Maria! Meus parabéns! Não julgue-me se sempre digo a mesma coisa -admito-, mas sempre me surpreendo contigo! Isso foi um pesadelo sofrido, acredito eu, de sonhar. O texto me lembrou do filme A Casa de Cera. Não sei se já viu. Eu gostei muito do filme, mas afirmo, O SEU TEXTO É MUITO MELHOR! Esse fica nos favoritos!
Sei bem como é estar em meio ao caos: barulho de macas, gritos, sofrimeito, frieza, escuridão... Resumidamente, como é estar em um hospital! Nesta semana meu avô pegou pneumonia, uma doença certamente mortal, mas em seu caso em início, por tanto, não muito grave. Em 4 ou 5 dias têve alta. Foi visitá-lo 3 dias, e durante este período passei por experiências que não gostaria de ter vivido. Os corredores mortos, gritos mudos, sofrimento, caos! Agonisante a situação... Mas um fato que mais me marcou, certamente foi quando uma batida soou, vinda da porta. Estávamos no apto. eu, meu avô e minha mãe. Observando a desistência de quem estava do lado de fora, ignoramos a batida. A porta abriu-se. Um enfermeiro disse:
"Licença, podemos deixar a porta aberta por um instante, só pra maca entrar no quarto?" A maca era grande demais, e o corredor, muito estreito. Falamos.
"Sim, claro.", quase em coro.
Notei um barulho estranho vindo de fora do quarto,igualmente a minha mãe. Dirigimo-nos à porta. Sem mesmo olhar o que se passava ali, senti um peso em minha cabeça, pensei que ía cair. Vi, então, uma senhora, aparentemente com 80 anos, necessitando de tubo de oxigênio para auxiliar na respiração. Havia sofrido um AVC. Afastei-me. Não gostei da sensação, ninguém gostaria.
Trocando de assunto... iniciei a leitura de "Cartas de um Diabo a Seu Aprendiz". Achei o início interessante. Não tinha começado antes porque estava lendo "O Fazedor de Velhos", muito bom também.
Vi umas músicas da banda que me indicou. Ouvi e gostei. Falando em música, estou descobrindo novas músicas do Avenged Sevenfold que estou gostando bastante, como Dear God.
Uma dúvida: quem nasce em lages é lageano, mas quem nasce em Frederico? Frederiquence? Surgiu-me esta dúvida e gostaria de saber...
Obrigado, Maria. Até logo :)
oora Mateus, obrigada! (:
Não assisti a Casa de cera mas, esse não foi um sonho agradável mesmo. Acho que passei o tempo todo sentindo agonia enquanto sonhava, mas por achar que até fazia sentido, resolvi escrever e pôr um nome na personagem ^^
Que bom que está tudo bem com o seu avô (: Não faz muito tempo que fui no hospital também, por causa de algumas complicações com a minha avó, mas realmente odeio hospitais! Algumas cenas ruins de lá demoram para sair do pensamento depois :x
Mas que ótimo (: Adoro quando as pessoas gostam das músicas que eu ouço ^^ Dear God é uma música bonita, provavelmente você irá gostar de So Far Away também, da banda. Eu gosto de todas as músicas deles que ouvi até hoje, mas prefiro as mais agitadas :p
Ah, aqui a gente diz frederiquense mesmo, mas há gente que diga que o certo é Westphalense. Nome estranho né, prefiro frequeriquense hahahaha
Até logo guri! \o/
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