Cada pingo de chuva era uma pequena lâmina a se enterrar na carne.
As nuvens escuras se moviam, velozes, sob sua cabeça, e o salgado das lágrimas tocava os lábios que falavam cada vez mais alto, com cada vez mais pesar. Em um momento de perdição, as vozes se alteraram, se calaram, estremeceram, enquanto a chuva caía mais rapidamente. Duas vozes, dois corações, dois pares de olhos marejados, e nenhuma palavra. Nada parecia importar, nada seria capaz de acalmar, nada poderia alterar uma opinião já formada.
Quis correr, para bem longe. Não era a pessoa certa - talvez nunca tivesse sido - e quanto seria necessário mudar, ouvir, suportar, até que o interior se acalmasse? Quis correr. Quis dar tempo ao tempo, quis ordenar pensamento e coração, virou-se de costas e pôs-se a caminhar no meio da grama molhada, e a outra voz incentivou para que fosse então, para que se afastasse, mas nunca mais lhe dirigisse a palavra. Em meio aos pingos de chuva que se tornavam cada vez mais afiados, sentiu as pernas atrofiarem e o coração fraquejar pela primeira vez. Um lado seu quis aceitar a proposta e fugir para bem longe, para onde pudesse afastar a dor, para onde pudesse ter certeza de quem era.
Mas algo, lá no fundo, uma força inexplicável e inabalável, fez com que corresse em direção àquela outra voz, como um pedido de socorro ao sol, para que viesse o mais rápido possível. A outra voz se calou quando o abraço se fez, uma mistura de gestos, respirações entrecortadas, pestanas úmidas. Redenção.
Pediu que nunca se afastasse, que nunca duvidasse, e assim a chuva caiu, calma e silenciosa, e todos os planos insanos e palavras dolorosas se foram num piscar de olhos. Em meio ao silêncio de duas almas ouvindo a paz pingando dos céus, os planos se desfazem, a loucura vai embora, o talvez não existe. As coisas são muito certas, a pessoa é a certa, o sentimento é mais do que certo.
É real, é infinitamente estranho, infinitamente belo, e se faz na pureza do silêncio.
Assim como a chuva.
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