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sábado, 28 de setembro de 2013

Não há mais tempo

Tinha aquela janela piscando, o barulho rápido e ansioso de teclas batendo para responder a mensagem o mais rápido possível. 

Havia também aquela leve palpitação ao ver uma pequena foto aparecer e quando vinha aquele "oi" escrito na tela.

O tempo passa e as lembranças ficam.

Não existia tempo. Não existia madrugada. Quem se importava com acordar cedo? O mais importante era aquele momento, aquela conversa. Horas e horas falando sobre tudo e sobre o nada, sem se cansar, sem vir o sono, sem faltar assunto. Aquele olhar no dia seguinte, carregado de palavras não ditas e uma timidez graciosa.

E o tempo passa e as coisas mudam.

O dia seguinte demorava cada a vez mais para chegar. Os vídeos começaram a preencher a noite e toda noite era uma noite bem vinda: a cada sorriso dado, aparecia outro na tela, a cada gargalhada muda vinha outra ainda mais carregada de dentes, e tudo era tão bom. Tão reconfortante. Tão revigorante. Quente e agradável. Como sol num dia de vento frio.  

E o tempo passa e as coisas mudam outra vez.

Já não há mais tempo. Já não é mais possível. O horário precisa ser cumprido, os motivos precisam ser compreendidos, e é assim que tem que ser. Não somos mais crianças, agora temos responsabilidades, temos emprego, temos dinheiro a ganhar. E isso precisa ser entendido, certo? É preciso reconhecer que existem prioridades, compreender que a meia noite é o toque de recolher, que o relógio não espera.

O tempo passou, e só as lembranças ficam.

É natural que uma hora a criança tenha que crescer, embora ela pense que essa hora sempre vai demorar a chegar. É natural que os deveres e horários sejam cumpridos, que o tempo de lazer diminua, que as conversas sobre tudo ou sobre o nada fiquem para uma outra hora, um outro dia. É natural aquele sentimento vago, como se algum elo tivesse se perdido no meio do caminho.

Só não acho natural esse constante desejo de que a tela pudesse levar o toque dos meus dedos ao corpo físico do outro lado, essa vontade de gritar: eu entendo, mas entenda você também. Entenda a falta que aquilo me faz, entenda minha saudade. Meu choro, minha birra, minha teimosia, minha chatice. Não precisa concordar, é só entender.

O tempo passou, e eu quero tudo aquilo de volta.

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