Era um passeio de trem por algum lugar que eu não conhecia, e aquele trem subia colinas e descia não muito veloz, passando por entre cidades de casinhas simpáticas e piso de pedras. Eu observava tudo da janela, ao lado dele, que segurava minha mão e a aquecia, tal qual o sol que fazia no céu sem uma nuvem sequer. Era uma claridade linda, que deixava as casinhas ainda mais convidativas, o passeio mais lindo, a mão segurando a minha ainda mais quentinha. Como poderia um trem passar por entre as casas? Como poderia fazer um céu tão claro? No meu mundo podia. E ficava cada vez mais claro, de um modo que meus olhos começaram a doer, e então tornou-se difícil abrir as pálpebras e admirar a paisagem. E foi aumentando tanto, que logo meu coração ficou sobressaltado, minha tranquilidade foi embora, era uma bola de fogo envolvendo todo meu corpo, meu rosto, meus cabelos, as casinhas, o piso de pedras, tudo. Não era mais passeio, era desespero. Aquele brilho todo me engoliu, de tal forma que abri os olhos e só enxergava o branco vindo do nada, meu Deus!, eu estava cega. De olhos arregalados já não enxergava o caminho, nem as mãos que antes seguravam as minhas, eu só enxergava branco, tudo branco, por onde a claridade arrasadora havia passado. Ergui os braços e comecei a apalpar o ar: cadê ele? Como aquilo poderia ficar mais desesperador? No meu mundo podia. Até que minhas mãos encontraram um rosto em frente a mim e, embora eu nada pudesse enxergar, reconheci a barba por entre meus dedos, a textura da pele e o perfume que eu amava. O puxei para perto, tremendo e sem fôlego, então veio aquela doce voz que me disse "ei, calma, estou aqui. Eu estou aqui com você".
Como poderia eu estar cega e estar vendo semelhante anjo me acolhendo em seu abraço? Como poderia não enxergar nada, mas ainda assim enxergar a doçura daquele olhar sobre mim?
No meu mundo podia.
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